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Uma conversa com poetas negras brasileiras que você vai adorar conhecer – e ler!

Crédito: Divulgação/Karú Martins/Instagram: @luzribeiropoesia/Vic Sales

Começamos essa matéria com um questionamento: quantos livros presentes na sua estante foram escritos por mulheres? Aliás, dessas obras, quantas foram escritas por mulheres negras?

Se, por muito tempo, a palavra foi pertencente aos homens brancos, com a responsabilidade de definir o mundo diante de seus olhos e perspectivas, já é de se imaginar que a figura negra feminina nesse processo enfrentou uma batalha ainda pior, né? Mais do que serem atingidas pelo machismo, elas também foram afetadas pelo racismo, tornando-as duplamente invisibilizadas!

Se voltarmos na história, vamos lembrar que, por muito tempo, para serem publicadas, as mulheres precisavam utilizar nomes fictícios masculinos, uma vez que a sociedade não acreditava que textos bem escritos, assim como bons poemas, poderiam sair da mente de uma mulher. Bizarro!

Mas, é bom lembrar que para além das escritoras brancas tão conhecidas, as negras sempre tiveram uma presença significativa na literatura nacional. Já ouviu falar de Maria Firmina dos Reis? Recorda-se de ter lido obras dela na escola? É provável que não! E isso só reforça o apagamento histórico. Mas ela foi a primeira romancista brasileira que tivemos.

Para o nosso alívio – e alegria – nos últimos anos, diversos nomes vêm ganhando destaque na mídia. É quase que uma tentativa de combater o silenciamento, sabe? E foi pensando em celebrar tais talentos, que a TodaTeen te convida para conhecer Mel Duarte e Luz Ribeiro em uma conversa bem intimista.

Nascida na primavera de 1988, Mel Duarte é escritora, poeta, slammer e comunicadora que acredita nas palavras como ferramenta de transformação social. Forjada na cidade de São Paulo, encontrou na poesia um aparato de sobrevivência em meio ao concreto para não perder a ternura. Intenso, né?

Crédito: Divulgação/Julia Rodrigues/Tamara Cristina

“Hoje, honro um compromisso ancestral de manter a palavra em movimento e escrevo para nunca mais ser silenciada”, conta.

Ainda pequena, aos oito anos, se encantou pela poesia. Sim, foi paixão a primeira lida. “Sempre fui uma criança comunicativa, mas eu falava tão rápido e era tão agitada, inquieta que as pessoas não me entendiam e através da escrita aprendi a manter o foco e me fazer entender. Desde muito nova compreendi o poder das palavras e entendi que precisava utilizá-las a meu favor”, explica.

Com anos na bagagem, a poesia a levou para lugares que nunca sonhou, mas que certamente foram sonhados por seus ancestrais. Publicou livros como “Fragmentos Dispersos” (2013) e “Querem nos calar: Poemas para serem lidos em voz alta” (2019), foi destaque no sarau de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) 2016 e a primeira mulher a vencer o Rio Poetry Slam, um campeonato internacional de poesia. Arrasou!

“Pensando em acesso e reconhecimento do trabalho, ser convidada, em 2017, para representar a literatura brasileira dentro do Festilab Taag, em Luanda, na Angola. Ao chegar no evento para me apresentar, me deparar com muitas pessoas, homens e mulheres, declamando meus poemas junto comigo, foi bem especial. Eu me senti em casa e feliz por ter feito uma travessia bonita ao contrário dos meus antepassados que habitaram aquela terra”.

Poder e acolhimento

Para a Mel, a comunicação é a chave de tudo e quando se tem consciência da responsabilidade que as palavras carregam, é possível usá-las de forma consciente para fortalecer o próximo. “Hoje, mais do que nunca, entendo a importância de oferecer afago e de inspirar principalmente as próximas gerações, para que não silenciem a frente de diversidades da vida e entendam que toda voz tem o direito de ser ouvida”.

E tem mais: em 2019, ela se tornou a primeira poeta negra brasileira a lançar um disco de poesia falada. Ouça “Mormaço – Entre outras formas de calor”.

Luz Ribeiro costuma dizer que é o sonho de alguma ancestral, que é a possibilidade que Luciana Aline achou para não ser invizibilizada. É mãe de Ben, filha de Odoyá e escreve porque sabe que é a ponte do passado com o presente.

Crédito: Instagram/@luzribeiropoesia/Vic Sales

“Tenho certeza que, em algum momento da história, uma mulher preta escravizada sonhou que as próximas gerações fossem livres, e eu sou fruto desse sonho. Uma negra livre que utiliza a poesia para narrar seus dias e seus feitos”, conta.

Sua relação e amor com a escrita começou de forma inconsciente, vendo a mãe, analfabeta funcional, registrando suas vivências com um gravador.

“Aí eu aprendi uma das minhas maiores lições: palavra está para além da escrita. Mesmo escrevendo desde muito pequena para driblar a solidão de uma filha temporão, depois para negociar com o racismo desde o período do ensino fundamental, acredito que, de forma consciente, o amor pela escrita surge quando eu adentrei o Sarau da Cooperifa, em 2012. Naquele momento, eu tinha um direcionamento do tipo de escrita que me cabia e fazia sentido. Uma escrita que me tornaria enfim, menos solitária”, relembra.

Celebrando às conquistas!

Mais do que ser campeã nacional de poesia no “Slam Br 2016”, viajar para França para competir, fazer parte do longa “Slam Voz de Levante”, onde é uma das protagonistas e marcar presença na série documental “Bravos”, Luz destaca aqui duas vitórias únicas.

“Meu poema “menimelimetros” foi questão  do  vestibular da UNICAMP em 2020, isso me saltou para um outro lugar dentro da história. E outro momento foi ser reconhecida na rua, mas não em qualquer lugar, fui reconhecida como poeta dentro do meu território. Para uma artista de quebrada ser reconhecida na sua “casa” é subverter o ditado popular e saber que santas de casa fazem milagres sim”.

Poesia em tempos tão difíceis

Nos períodos duros da pandemia, houve um aumento significativo de conteúdos que levam mensagens positivas e quase que um abraço de conforto compartilhados nas redes sociais. Para Luz, a justificativa é simples: poder de síntese.

“A poeta pernambucana Maurinete Lima dizia que a poesia tem o poder da síntese, e eu  concordo. A poética é capaz de afagar, confrontar, revidar… tudo através da mesma caneta, em em curto espaço de tempo, e em momentos difíceis como o que estamos vivendo  acredito que poetas verteram palavras em momentos solitários que iam de encontro ao  coletivo, por isso era possível se sentir abraçade. Eu costumo dizer que eu escrevo para curar o mundo, enquanto me curo, a palavra é uma forma de reestruturar e organizar as sensações”, diz.

Sua conexão com a escrita? É legado!

“Escrevo porque sou continuidade, escrevo porque morreram para que hoje eu pudesse viver, escrevo para que meu filho viva mais, escrevo como garantia de sobrevivência. Minha escrita não é invenção, é reinvenção”, finaliza.

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